Na escola de magia de Terramar, criada pela escritora norte-americana Ursula K. Le Guin, um jovem aprendiz enfrenta uma verdade desanimadora: é-lhe impossível dominar uma tempestade, transformar um seixo em diamante ou curar uma ferida se não conhecer o “nome verdadeiro” das coisas. Ali, o rigor verbal é a única ferramenta de poder. Um descuido, um pequeno lapso, e o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro.
No nosso contexto de comunicação e criatividade, sentimos que, de alguma forma, também somos agentes num universo de magia. Comunicar é um ato que transforma: aproxima e afasta pessoas, induz movimentos, gera consequências, converte ideias em ações e ações em novas ideias. Nesse processo, o nosso trabalho é um exercício constante de procurar o “nome verdadeiro”, que provoca o sentimento e o resultado necessários e nunca o oposto.
Poucos territórios exigem tanta responsabilidade como o da saúde e da ciência. Trabalhar com marcas deste setor, comunicar conceitos científicos, vocabulário hermético e especificidades técnicas, num universo que é regulado por limites éticos e legais e que tem um impacto determinante na vida das pessoas, pede-nos uma arte delicada: a de tornar as mensagens acessíveis e interessantes sem sacrifício do rigor.
A tentação de recorrer às “palavras aproximadas” ou às “ideias implícitas” é grande, principalmente quando se avança sob prazos apertados, com a motivação do clickbait ou com desconhecimento do tema.
É aí que a correlação acaba confundida com a causalidade, o tratamento é substituído pela cura, um sinal e um sintoma parecem a mesma coisa, e a fronteira entre um suplemento e um medicamento é esquecida, ignorando que cada termo tem implicações clínicas e psicológicas distintas. O que parecem simplificações inofensivas são, na verdade, tentativas de fazer magia com as palavras erradas. E palavras erradas alimentam realidades perigosas.
No setor da saúde, o rigor é o melhor seguro de reputação para uma marca e a forma mais elevada de empatia para com as pessoas. Estrategicamente, podemos vestir a comunicação com as cores mais vibrantes, envolvê-la nas formas mais impactantes, amplificá-la nos momentos e canais mais relevantes, mas a nossa primeira missão é garantir que cada marca se expressa com integridade, sem trair a confiança dos consumidores.
Assumir a comunicação neste setor exige que nos tornemos, como os magos de Terramar, eternos aprendizes dos “nomes verdadeiros”. Saber falar de saúde e ciência é, antes de tudo, ter respeito absoluto pela identidade do que nomeamos. E lembrar, a cada momento, que a clareza é a única magia que realmente funciona.